terça-feira, 3 de julho de 2018

To bring Lowell to a Ginsberg party

Ontem fui até ao Povo Lisboa para mais ver e ouvir o meu amigo Pedro Jeremias (da banda Photomaton, entre outros projetos) atuar em mais uma noite de "Poetas do Povo", a ótima iniciativa das segundas-feiras à noite, desta feita dedicada à poesia americana contemporânea.

O Pedro esteve ótimo, trazendo à poesia lida umas notas de poesia cantada, com o baixo a ajudar, que foram excelentes. Aliás, todo o nível de participação foi ótimo, embora sem supresas as preferências tenham ido para os poetas da beat generation. Antecipando-o pedi para ler um poema, uma leitura (aparentemente) chata no contexto da maioria dos poetas escolhidos. Mas trazer Lowell para uma festa de Ginsberg pareceu-me fazer sentido pois aquele tem muito mais que ver com a beat generation e os seus escritores do que se pode pensar, além de ser muito mais desconhecido entre os leitores portugueses. Além disso procurei ler "Waking Early Sunday Morning" ao estilo do próprio Lowell com a pequena grande diferença de que não sou um nativo do inglês americano e de que este poema me parece inspirar mais emoção do que parecia inspirar "Skunk Hour" ao próprio poeta. Fica aqui o poema. É preciso (re)descobrir Lowell.

Robert Lowell - Waking Early Sunday Morning


O to break loose, like the chinook
salmon jumping and falling back,
nosing up to the impossible
stone and bone-crushing waterfall –
raw-jawed, weak-fleshed there, stopped by ten
steps of the roaring ladder, and then
to clear the top on the last try,
alive enough to spawn and die.

Stop, back off.  The salmon breaks
water, and now my body wakes
to feel the unpolluted joy
and criminal leisure of a boy –
no rainbow smashing a dry fly
in the white run is free as I,
here squatting like a dragon on
time's hoard before the day's begun!

Vermin run for their unstopped holes;
in some dark nook a fieldmouse rolls
a marble, hours on end, then stops;
the termite in the woodwork sleeps –
listen, creatures of the night
obsessive, casual, sure of foot,
go on grinding, while the sun’s
daily remorseful blackout dawns.

Fierce, fireless mind, running downhill.
Look up and see the harbor fill:
business as usual in eclipse
goes down to the sea in ships –
wake of refuse, dacron rope,
bound for Bermuda or Good Hope,
all bright before the morning watch
the wine-dark hulls of yawl and ketch.

I watch a glass of water wet
with a fine fuzz of icy sweat,
silvery colors touched with sky,
serene in their neutrality –
yet if I shift, or change my mood,
I see some object made of wood,
background behind it of brown grain,
to darken it, but not to stain.

O that the spirit could remain
tinged but untarnished by its strain!
Better dressed and stacking birch,
or lost with the Faithful at Church –
anywhere, but somewhere else!
And now the new electric bells,
clearly chiming, "Faith of our fathers,"
and now the congregation gathers.

O Bible chopped and crucified
in hymns we hear but do not read,
none of the milder subtleties
of grace or art will sweeten these
stiff quatrains shoveled out four-square –
they sing of peace, and preach despair;
yet they gave darkness some control,
and left a loophole for the soul.

No, put old clothes on, and explore
the corners of the woodshed for
its dregs and dreck: tools with no handle,
ten candle-ends not worth a candle,
old lumber banished from the Temple,
damned by Paul’s precept and example,
cast from the kingdom, banned in Israel,
the wordless sign, the tinkling cymbal.

When will we see Him face to face?
Each day, He shines through darker glass.
In this small town where everything
is known, I see His vanishing
emblems, His white spire and flag-
pole sticking out above the fog,
like old white china doorknobs, sad,
slight, useless things to calm the mad.

Hammering military splendor,
top-heavy Goliath in full armor –
little redemption in the mass
liquidations of their brass,
elephant and phalanx moving
with the times and still improving,
when that kingdom hit the crash:
a million foreskins stacked like trash ...

Sing softer!  But what if a new
diminuendo brings no true
tenderness, only restlessness,
excess, the hunger for success,
sanity or self-deception
fixed and kicked by reckless caution,
while we listen to the bells –
anywhere, but somewhere else!

O to break loose.  All life's grandeur
is something with a girl in summer ...
elated as the President
girdled by his establishment
this Sunday morning, free to chaff
his own thoughts with his bear-cuffed staff,
swimming nude, unbuttoned, sick
of his ghost-written rhetoric!

No weekends for the gods now.  Wars
flicker, earth licks its open sores,
fresh breakage, fresh promotions, chance
assassinations, no advance.
Only man thinning out his kind
sounds through the Sabbath noon, the blind
swipe of the pruner and his knife
busy about the tree of life ...

Pity the planet, all joy gone
from this sweet volcanic cone;
peace to our children when they fall
in small war on the heels of small
war – until the end of time
to police the earth, a ghost
orbiting forever lost
in our monotonous sublime.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Carta ao Pai

Pai,

hoje vesti um colete teu e coloquei uma gravata tua (teve que ser com um four-in-hand porque a gravata fica-me pequena com um half windsor) para celebrar os teus 69 anos. E depois apercebi-me que o morto morreu com 69 anos. Tu ficaste a 10 meses de os atingir. O teu colete e as tuas gravatas têm tido bom uso, embora me esteja a habituar a ter gravatas de seda. Isto de haver um 23 de janeiro sem ti é curioso. Apetece-me ir jantar a qualquer lado e deixar lá o teu lugar vazio para recordar conversas ou inventá-las. Jantar, jantávamos sempre (às vezes almoçávamos, é certo) mesmo que estivéssemos tempos sem nos vermos. De resto, está tudo bem, estou só com receio de os limões já estarem maduros e eu não conseguir lá ir a casa tão cedo. Um abraço.

domingo, 22 de outubro de 2017

Oxalá


Lançamento dia 28, pelas 18h, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul. 
Apresentação por Catarina Nunes de Almeida.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Qualquer coisa como felicidade

Não me lembro como cheguei à John Burnside, mas sei que foi pela poesia, com o The Good Neighbour, pois a Amazon.co.uk informa-me que o comprei no dia 14 de novembro de 2005. Há por isso, agora que penso no ano, boas hipóteses de ter sido o TLS a dar-me Burnside, uma vez que nessa altura era seu assinante. 

Gostei muito de The Good Neighbour e nos anos seguintes continuei a comprar e a ler a poesia de Burnside, com The Light Trap e Asylum Dance. O que nesse primeiro encontro com Burnside me agradou na sua poesia (talvez o que me tenha levado até ele, se encontrasse a recensão do TLS responsável) foi uma projeção de características a que dou valor na minha vida: o que ele escreve sobre a intimidade, a solidão, a quietude encontrava um espaço natural em em mim. Mas também a capacidade de fazer poemas com a matéria do quotidiano sem necessariamente comprometer a riqueza e, por vezes, elevação do vocabulário, da sintaxe, do ritmo. Ficou um dos meus poetas preferidos até hoje. 

Em 2014 resolvi explorar a sua prosa e comprei Something like happy, uma coleção de contos. Só os li esta semana. Os temas de Burnside de que gosto estão lá todos, mas com a elaboração da prosa, os cenários, os pequenos detalhes e, por isso, com uma persistência e uma intensidade que me agradou muito. Qualquer dos contos é uma peça muito bem desenhada, construída e polida, sobretudo no modo como um tema escolhido é dividido pelas personagens e pelas suas (aparentemente) normais interações. Maravilhoso.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Poema para ser lido no funeral do pai se a voz não se embargar

Fragmento do Livro da Sabedoria

A tua seta atirada ao alvo
fende o céu
e este logo se une

Poeira levada pelo vento
espuma dispersa pela tempestade
lembrança do viajante
que se demora apenas um dia

tudo é sombra que passa


(José Tolentino Mendonça in O Viajante Sem Sono)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Santa Teresa de Ávila

Devido ao livro que estou a tentar acabar de escrever, ando a aprofundar leituras sobre experiências místicas. Até aqui as minhas principais leituras haviam sido sobre o misticismo islâmico, que há muito me interessa e sobre o qual há muito leio. Dos dervixes dançantes a Attar, de Rumi a Ibn Arabi, o Islão está cheio de experiências místicas muito interessantes e ricas.

Mais recentemente, contudo, decidi aprofundar o pouco que sabia sobre o misticismo cristão/católico. O meu contato mais próximo havia sido com Angelus Silesius, que continua a ser até hoje e desde a adolescência uma das minhas leituras preferidas, mas tinha na cabeça São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. 

Comecei pela autobiografia de Santa Teresa de Ávila onde me interessava ler as várias fases da oração contemplativa que ela preconiza e que são dadas como um exemplo cimeiro do misticismo católico. Terminada a leitura se calhar devia ter passado para São João da Cruz, mas resolvi temperar o êxtase místico de Santa Teresa com a racionalidade de Santo Anselmo e comecei a ler as suas obras completas, daquele que é um dos doutores da Igreja que mais me fascina.

Quanto à Santa Teresa de Ávila, serviu o meu propósito: as minhas leituras sobre o tema do misticismo visam ajudar-me a mergulhar no tema do meu próximo livro, que se desenvolve em torno da ideia de desejo como expressão das limitações e vontade de superação. O misticismo é, para mim, uma forma de desejo ou uma expressão de desejo e essa é uma das dimensões que pretendo explorar no livro. Nesse sentido, a autobiografia de Santa Teresa, com as suas lições sobre oração, sobre a comunhão com Deus e a sua perceção do que isso significou na sua vida, são um testemunho muito interessante e inspirador. Ainda assim não sei se alguma vez irei ler o Castelo Interior, por mais interessante que me pareça: o tema em Santa Teresa surge-me um pouco repetitivo e, tirando investigadores especializados na sua vida ou na temática própria da oração católica, desmotiva leituras ulteriores.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Poemas pedidos

Leio poemas (também a pedido) e coloco o resultado aqui no Límpida. Caso queiram sugerir um poema, mandem mail.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Flanzine #12 Bowie

Está quase a sair a Flanzine #12 dedicada a David Bowie.
Conta com um poema meu, intitulado Ryuichi.
Em junho.