terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Carta ao Pai

Pai,

hoje vesti um colete teu e coloquei uma gravata tua (teve que ser com um four-in-hand porque a gravata fica-me pequena com um half windsor) para celebrar os teus 69 anos. E depois apercebi-me que o morto morreu com 69 anos. Tu ficaste a 10 meses de os atingir. O teu colete e as tuas gravatas têm tido bom uso, embora me esteja a habituar a ter gravatas de seda. Isto de haver um 23 de janeiro sem ti é curioso. Apetece-me ir jantar a qualquer lado e deixar lá o teu lugar vazio para recordar conversas ou inventá-las. Jantar, jantávamos sempre (às vezes almoçávamos, é certo) mesmo que estivéssemos tempos sem nos vermos. De resto, está tudo bem, estou só com receio de os limões já estarem maduros e eu não conseguir lá ir a casa tão cedo. Um abraço.

domingo, 22 de outubro de 2017

Oxalá


Lançamento dia 28, pelas 18h, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul. 
Apresentação por Catarina Nunes de Almeida.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Qualquer coisa como felicidade

Não me lembro como cheguei à John Burnside, mas sei que foi pela poesia, com o The Good Neighbour, pois a Amazon.co.uk informa-me que o comprei no dia 14 de novembro de 2005. Há por isso, agora que penso no ano, boas hipóteses de ter sido o TLS a dar-me Burnside, uma vez que nessa altura era seu assinante. 

Gostei muito de The Good Neighbour e nos anos seguintes continuei a comprar e a ler a poesia de Burnside, com The Light Trap e Asylum Dance. O que nesse primeiro encontro com Burnside me agradou na sua poesia (talvez o que me tenha levado até ele, se encontrasse a recensão do TLS responsável) foi uma projeção de características a que dou valor na minha vida: o que ele escreve sobre a intimidade, a solidão, a quietude encontrava um espaço natural em em mim. Mas também a capacidade de fazer poemas com a matéria do quotidiano sem necessariamente comprometer a riqueza e, por vezes, elevação do vocabulário, da sintaxe, do ritmo. Ficou um dos meus poetas preferidos até hoje. 

Em 2014 resolvi explorar a sua prosa e comprei Something like happy, uma coleção de contos. Só os li esta semana. Os temas de Burnside de que gosto estão lá todos, mas com a elaboração da prosa, os cenários, os pequenos detalhes e, por isso, com uma persistência e uma intensidade que me agradou muito. Qualquer dos contos é uma peça muito bem desenhada, construída e polida, sobretudo no modo como um tema escolhido é dividido pelas personagens e pelas suas (aparentemente) normais interações. Maravilhoso.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Poema para ser lido no funeral do pai se a voz não se embargar

Fragmento do Livro da Sabedoria

A tua seta atirada ao alvo
fende o céu
e este logo se une

Poeira levada pelo vento
espuma dispersa pela tempestade
lembrança do viajante
que se demora apenas um dia

tudo é sombra que passa


(José Tolentino Mendonça in O Viajante Sem Sono)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Santa Teresa de Ávila

Devido ao livro que estou a tentar acabar de escrever, ando a aprofundar leituras sobre experiências místicas. Até aqui as minhas principais leituras haviam sido sobre o misticismo islâmico, que há muito me interessa e sobre o qual há muito leio. Dos dervixes dançantes a Attar, de Rumi a Ibn Arabi, o Islão está cheio de experiências místicas muito interessantes e ricas.

Mais recentemente, contudo, decidi aprofundar o pouco que sabia sobre o misticismo cristão/católico. O meu contato mais próximo havia sido com Angelus Silesius, que continua a ser até hoje e desde a adolescência uma das minhas leituras preferidas, mas tinha na cabeça São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. 

Comecei pela autobiografia de Santa Teresa de Ávila onde me interessava ler as várias fases da oração contemplativa que ela preconiza e que são dadas como um exemplo cimeiro do misticismo católico. Terminada a leitura se calhar devia ter passado para São João da Cruz, mas resolvi temperar o êxtase místico de Santa Teresa com a racionalidade de Santo Anselmo e comecei a ler as suas obras completas, daquele que é um dos doutores da Igreja que mais me fascina.

Quanto à Santa Teresa de Ávila, serviu o meu propósito: as minhas leituras sobre o tema do misticismo visam ajudar-me a mergulhar no tema do meu próximo livro, que se desenvolve em torno da ideia de desejo como expressão das limitações e vontade de superação. O misticismo é, para mim, uma forma de desejo ou uma expressão de desejo e essa é uma das dimensões que pretendo explorar no livro. Nesse sentido, a autobiografia de Santa Teresa, com as suas lições sobre oração, sobre a comunhão com Deus e a sua perceção do que isso significou na sua vida, são um testemunho muito interessante e inspirador. Ainda assim não sei se alguma vez irei ler o Castelo Interior, por mais interessante que me pareça: o tema em Santa Teresa surge-me um pouco repetitivo e, tirando investigadores especializados na sua vida ou na temática própria da oração católica, desmotiva leituras ulteriores.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Poemas pedidos

Leio poemas (também a pedido) e coloco o resultado aqui no Límpida. Caso queiram sugerir um poema, mandem mail.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Flanzine #12 Bowie

Está quase a sair a Flanzine #12 dedicada a David Bowie.
Conta com um poema meu, intitulado Ryuichi.
Em junho.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Sete anos e um dia

E ao sétimo ano não fomos visitar o Zé Manel. Quer dizer, não fomos no dia 10. Fomos no dia 11. O L. estava doente e sozinho com o filho pequeno, eu ia ver o jogo mesmo a meio da tarde e, de repente, o cemitério estava fechado. Fiquei a pensar nisto: em como ao sétimo ano iríamos falhar o dia. Aquele dia. Dia 10. Aquele exato e específico dia, que é o dia do aniversário da morte. Custou-me um bocado. Mas depois pensei no morto. Que pensaria o morto? O morto compreendia e aceitava quase tudo. Um filho pequeno de certeza, uma doença, claro, um jogo de futebol, quase de certeza. Fomos no dia seguinte. Chegámos depois da hora (eu troquei o horário de inverno pelo de verão) e só um segurança amável nos deixou não adiar mais a visita de aniversário. Lá ficámos. Em pé. Ele deitado. Todos em silêncio. Durante uns valentes minutos. Depois fomos beber um café e prometemos um ao outro (e ao morto) que no próximo ano não haveria falhas. A intenção e a promessa já ninguém nos tira.