sábado, 13 de outubro de 2018

Seis números de crónicas ébrias

A brincar, a brincar levo meia dúzia de crónicas ébrias para a revista Bica. E todos sabemos a importância da bica pingada na cultura portuguesa. 

Tem sido um verdadeiro prazer. Sempre com prazos apertados, como gosto e tem de ser, apesar da revista ser trimestral. Sempre com temas interessantes para me estimular e um editor que é uma pessoa boa, além de um excelente editor. 

No último número, o quinto, do Verão de 2018, escrevi sobre a sazonalidade da bebida e no próximo escreverei sobre um tema relevante para Portugal: a aguardente. Sai no início de Dezembro.





sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Alice Oswald

Just because.



She could be any woman at all,
caught off-guard on-guard.
With her hands stroking or strangling and maybe
with her intentions half interred.
But she is as she is. Her foot is always
filing away at its cord.
And what she's really after
is to wander.

from Rambling Rose, Alice Oswald.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

79 anos

O morto faz anos. E logo no primeiro dia do meu mês preferido. Sempre assim foi. Quando o conheci já ele fazia anos no dia 1 de outubro. Uma maravilha.
Este é o último aniversário do morto antes de fazer dez anos que morreu. E logo depois fará 80 anos. O acaso e a matemática têm destas coisas.
O morto tem aparecido menos. Mas melhor. Nisso está como eu. Eu próprio me tenho aparecido menos, mas, perdoem-me a imodéstia, melhor. Estou mais focado. O morto faz 79 anos e mesmo morto continua a ensinar-me tanto. Já as saudades e a falta que me faz ficam para o aniversário da sua morte.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

As antigas civilizações

Na idade em que os meus filhos começam a despertar para a consciência do mundo e a formular memórias que os poderão acompanhar pela vida inteira (5/6 anos) dei por mim a pensar na semelhança entre as importantes pessoas da minha vida que nunca conhecerão e as fantásticas civilizações perdidas que ocupam o meu imaginário. 

Desde miúdo que sou fascinado por todo o tipo de civilizações antigas, não apenas aquelas que conhecemos, bem ou mal, como a civilização babilónica ou assíria, azteca ou maia, védica ou viking, mas também civilizações que podem nunca ter sido, como a Atlântida, ou que simplesmente foram inventadas, como todas aquelas que encontramos recorrentemente na ficção. Daí que tenha tido a minha quota de livros e jogos sobre todas estas civilizações, alguns misturando todas, como é o caso da saga Assassin's Creed, que jogo apaixonadamente nos dias que correm. 

O que mais fascina nestas civilizações é o nível de sofisticação de vários aspectos do que é ser humano, em períodos tão longinquos, tão distantes da realidade que conhecemos hoje. Como se tivesse havido um recomeço do mundo e o que estivéssemos vivendo hoje fosse um outro tempo, completamente diferente, uma outra vida da histórias das civilizações.

O mesmo acontece com as pessoas que me foram morrendo ou que por qualquer razão saíram da minha vida. Eu trago-as comigo, sem esforço, mas elas não têm existência palpável no dia-a-dia, exceto, tal como as antigas civilizações, pelo surgimento, às vezes, de artefactos que as evocam ou de repositórios de objetos que as recordam. Por vezes, pego num livro e digo alto: este livro foi a Salette que me ofereceu. E o meu filho mais velho pergunta quem é a Salette. Antes ficava em choque quando estas coisas aconteciam. Mas depois comecei a pensar nas velhas civilizações. No modo como para alguém que as tenha conhecido ou vivido (como se existisse alguém assim) ou para alguém que as estude, muitas coisas que hoje nos parecem novas e revolucionárias já haviam sido propostas ou desenvolvidas por tais civilizações. De igual modo com a descoberta, pelos meus filhos, dessas pessoas importantes na minha vida, mas a que elas só poderão chegar por objetos e conversas comigo. A Salette morreu muitos anos antes de os meus filhos nascerem mas acompanhou-me durante toda a minha infância e adolescência. Foi um dos primeiros "crescidos" que se tornou meu amigo, com quem tinha uma relação autónoma, independente dos meus pais. Mas para além da Salette, há o Zé Manel ou mesmo o meu pai, de que os meus filhos mais novos nunca se lembrarão. Para eles, estas importantes pessoas da minha vida serão como as antigas civilizações. Com sorte conseguirei criar-lhes interesse e até fascínio pelas suas existências, mas serão sempre algo que existiu numa outra vida.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O Marinho morreu

O Marinho morreu. O Marinho já morava cá no bairro quando vim para cá há oito anos. Sempre me tratou por vizinho. Eu tratava-o por Marinho. A casa que era dele fica bem em frente da minha. Casinha pitoresca, sempre achei. Cabisbaixa, de dois andares, mas com umas pombas brancas de loiça nuns beirais. Umas anti-gárgulas.

O Marinho gostava muito dos miúdos e os miúdos do Marinho. Muito bem educado, o Marinho cumprimentava-os sempre que os via e metia-se com eles. Comecei a falar-lhe nos interstícios desta relação. E o Marinho ficou a fazer parte daquele círculo exterior da vida, onde não se entra bem - ele nunca entrou na minha e eu nunca entrei na dele - mas onde se partilha um espaço público comum e rotinas comuns. Uma vizinhança. Uma cordialidade. Uma gentileza.

O Marinho gostava de andar de bicicleta. Muitas vezes correndo eu no Monsanto passou por mim guiando a sua BTT e lá nos cumprimentávamos num rompante. Ainda há pouco tempo tinha arranjado a bicicleta do meu filho mais velho e um dia apontou a matrícula dum carro que derrubou a minha vespa. Uma vizinhança.

Não sei o que fazia o Marinho. Acho que não trabalhava e por isso é que sempre o via, defronte da casa, nos velhos silos de cereais, conversando, fumando, gastando tempo. E hoje morreu.

Deus, sabes que de ti espero tudo e vamos andando assim, mas hoje, com esta, fiquei fodido. Pensando porquê - porque tanta gente à minha volta morre - percebo que a morte do Marinho é também a morte de uma gentileza, talvez a melhor gentileza, aquela que tinha todas as desculpas para não ser. Intuí sempre na vida do Marinho muita dificuldade, muita adversidade, mas o círculo da vizinhança não me deixou fazer mais. Eu não me deixei fazer mais. Uma vez, num Natal, ofereci-lhe um espumante e algumas vezes dei-lhe limões. Foi isto que fiz pelo Marinho. O Marinho sempre gentil, esmaecido, pairando pelo bairro, alimentando-se mal, dizem-me agora. O Marinho morreu. 

terça-feira, 3 de julho de 2018

To bring Lowell to a Ginsberg party

Ontem fui até ao Povo Lisboa para mais ver e ouvir o meu amigo Pedro Jeremias (da banda Photomaton, entre outros projetos) atuar em mais uma noite de "Poetas do Povo", a ótima iniciativa das segundas-feiras à noite, desta feita dedicada à poesia americana contemporânea.

O Pedro esteve ótimo, trazendo à poesia lida umas notas de poesia cantada, com o baixo a ajudar, que foram excelentes. Aliás, todo o nível de participação foi ótimo, embora sem supresas as preferências tenham ido para os poetas da beat generation. Antecipando-o pedi para ler um poema, uma leitura (aparentemente) chata no contexto da maioria dos poetas escolhidos. Mas trazer Lowell para uma festa de Ginsberg pareceu-me fazer sentido pois aquele tem muito mais que ver com a beat generation e os seus escritores do que se pode pensar, além de ser muito mais desconhecido entre os leitores portugueses. Além disso procurei ler "Waking Early Sunday Morning" ao estilo do próprio Lowell com a pequena grande diferença de que não sou um nativo do inglês americano e de que este poema me parece inspirar mais emoção do que parecia inspirar "Skunk Hour" ao próprio poeta. Fica aqui o poema. É preciso (re)descobrir Lowell.

Robert Lowell - Waking Early Sunday Morning


O to break loose, like the chinook
salmon jumping and falling back,
nosing up to the impossible
stone and bone-crushing waterfall –
raw-jawed, weak-fleshed there, stopped by ten
steps of the roaring ladder, and then
to clear the top on the last try,
alive enough to spawn and die.

Stop, back off.  The salmon breaks
water, and now my body wakes
to feel the unpolluted joy
and criminal leisure of a boy –
no rainbow smashing a dry fly
in the white run is free as I,
here squatting like a dragon on
time's hoard before the day's begun!

Vermin run for their unstopped holes;
in some dark nook a fieldmouse rolls
a marble, hours on end, then stops;
the termite in the woodwork sleeps –
listen, creatures of the night
obsessive, casual, sure of foot,
go on grinding, while the sun’s
daily remorseful blackout dawns.

Fierce, fireless mind, running downhill.
Look up and see the harbor fill:
business as usual in eclipse
goes down to the sea in ships –
wake of refuse, dacron rope,
bound for Bermuda or Good Hope,
all bright before the morning watch
the wine-dark hulls of yawl and ketch.

I watch a glass of water wet
with a fine fuzz of icy sweat,
silvery colors touched with sky,
serene in their neutrality –
yet if I shift, or change my mood,
I see some object made of wood,
background behind it of brown grain,
to darken it, but not to stain.

O that the spirit could remain
tinged but untarnished by its strain!
Better dressed and stacking birch,
or lost with the Faithful at Church –
anywhere, but somewhere else!
And now the new electric bells,
clearly chiming, "Faith of our fathers,"
and now the congregation gathers.

O Bible chopped and crucified
in hymns we hear but do not read,
none of the milder subtleties
of grace or art will sweeten these
stiff quatrains shoveled out four-square –
they sing of peace, and preach despair;
yet they gave darkness some control,
and left a loophole for the soul.

No, put old clothes on, and explore
the corners of the woodshed for
its dregs and dreck: tools with no handle,
ten candle-ends not worth a candle,
old lumber banished from the Temple,
damned by Paul’s precept and example,
cast from the kingdom, banned in Israel,
the wordless sign, the tinkling cymbal.

When will we see Him face to face?
Each day, He shines through darker glass.
In this small town where everything
is known, I see His vanishing
emblems, His white spire and flag-
pole sticking out above the fog,
like old white china doorknobs, sad,
slight, useless things to calm the mad.

Hammering military splendor,
top-heavy Goliath in full armor –
little redemption in the mass
liquidations of their brass,
elephant and phalanx moving
with the times and still improving,
when that kingdom hit the crash:
a million foreskins stacked like trash ...

Sing softer!  But what if a new
diminuendo brings no true
tenderness, only restlessness,
excess, the hunger for success,
sanity or self-deception
fixed and kicked by reckless caution,
while we listen to the bells –
anywhere, but somewhere else!

O to break loose.  All life's grandeur
is something with a girl in summer ...
elated as the President
girdled by his establishment
this Sunday morning, free to chaff
his own thoughts with his bear-cuffed staff,
swimming nude, unbuttoned, sick
of his ghost-written rhetoric!

No weekends for the gods now.  Wars
flicker, earth licks its open sores,
fresh breakage, fresh promotions, chance
assassinations, no advance.
Only man thinning out his kind
sounds through the Sabbath noon, the blind
swipe of the pruner and his knife
busy about the tree of life ...

Pity the planet, all joy gone
from this sweet volcanic cone;
peace to our children when they fall
in small war on the heels of small
war – until the end of time
to police the earth, a ghost
orbiting forever lost
in our monotonous sublime.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Carta ao Pai

Pai,

hoje vesti um colete teu e coloquei uma gravata tua (teve que ser com um four-in-hand porque a gravata fica-me pequena com um half windsor) para celebrar os teus 69 anos. E depois apercebi-me que o morto morreu com 69 anos. Tu ficaste a 10 meses de os atingir. O teu colete e as tuas gravatas têm tido bom uso, embora me esteja a habituar a ter gravatas de seda. Isto de haver um 23 de janeiro sem ti é curioso. Apetece-me ir jantar a qualquer lado e deixar lá o teu lugar vazio para recordar conversas ou inventá-las. Jantar, jantávamos sempre (às vezes almoçávamos, é certo) mesmo que estivéssemos tempos sem nos vermos. De resto, está tudo bem, estou só com receio de os limões já estarem maduros e eu não conseguir lá ir a casa tão cedo. Um abraço.

domingo, 22 de outubro de 2017

Oxalá


Lançamento dia 28, pelas 18h, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul. 
Apresentação por Catarina Nunes de Almeida.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Qualquer coisa como felicidade

Não me lembro como cheguei à John Burnside, mas sei que foi pela poesia, com o The Good Neighbour, pois a Amazon.co.uk informa-me que o comprei no dia 14 de novembro de 2005. Há por isso, agora que penso no ano, boas hipóteses de ter sido o TLS a dar-me Burnside, uma vez que nessa altura era seu assinante. 

Gostei muito de The Good Neighbour e nos anos seguintes continuei a comprar e a ler a poesia de Burnside, com The Light Trap e Asylum Dance. O que nesse primeiro encontro com Burnside me agradou na sua poesia (talvez o que me tenha levado até ele, se encontrasse a recensão do TLS responsável) foi uma projeção de características a que dou valor na minha vida: o que ele escreve sobre a intimidade, a solidão, a quietude encontrava um espaço natural em em mim. Mas também a capacidade de fazer poemas com a matéria do quotidiano sem necessariamente comprometer a riqueza e, por vezes, elevação do vocabulário, da sintaxe, do ritmo. Ficou um dos meus poetas preferidos até hoje. 

Em 2014 resolvi explorar a sua prosa e comprei Something like happy, uma coleção de contos. Só os li esta semana. Os temas de Burnside de que gosto estão lá todos, mas com a elaboração da prosa, os cenários, os pequenos detalhes e, por isso, com uma persistência e uma intensidade que me agradou muito. Qualquer dos contos é uma peça muito bem desenhada, construída e polida, sobretudo no modo como um tema escolhido é dividido pelas personagens e pelas suas (aparentemente) normais interações. Maravilhoso.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Poema para ser lido no funeral do pai se a voz não se embargar

Fragmento do Livro da Sabedoria

A tua seta atirada ao alvo
fende o céu
e este logo se une

Poeira levada pelo vento
espuma dispersa pela tempestade
lembrança do viajante
que se demora apenas um dia

tudo é sombra que passa


(José Tolentino Mendonça in O Viajante Sem Sono)