Anne Carson
Não me lembro como descobri Anne Carson. Suspeito que terá sido quando me aventurei pelos territórios da poesia em inglês, quando me senti confiante o suficiente para lê-la em inglês: uma segunda língua em que podia provar a poesia.
Isto foi há alguns anos porque lembro-me que mediou muito a compra do meu segundo livro de Anne Carson. O primeiro foi Decreation, de 2005, e lembro-me de o ter comprado pouco tempo depois de ter saído (e está datado por mim para esse ano). Durante muitos meses regressei a este livro, incerto de que o tivesse compreendido e de que em algum momento o pudesse compreender. Assim, Carson juntou-se a outras mulheres cuja escrita é algo que se torna uma linguagem, mais do que um estilo (Llansol, claro, mas também, como aqui escrevi, a Joana Serrado de Guarany). Basta começar por atentar no que se pode ler no rodapé da capa de Decreation: "Poetry * Essays * Opera". O terreno de Carson é a criação literária e toda a criação determinada, continuada, implica uma linguagem.
A vantagem de termos uma linguagem é podermos, de certo modo, menorizar o tema, e substituí-lo por um modo. O tema torna-se o modo de o tratar. Por exemplo, em Decreation encontramos um ensaio "Every exit is an entrance", cujo o subtítulo parece definir o tema "A praise of sleep". Como quase sempre em Carson, a sua opinião mistura-se com a dos seus autores preferidos e é a linguagem que toma o protagonismo e condensa tudo. Geralmente os textos de Anne Carson são simultaneamente carregados de referência literárias e cinematográficas e ao mesmo tempo leves na liberdade que nos dão.
De todo o modo Decretation é um objecto magnífico, mas muito estranho quando comparado com o segundo livro de Carson a que deitei mãos: Eros, the Bittersweet. Aqui Carson começa pelo fim e revela imediatamente o objecto da sua atenção, Eros, e como o vê, bittersweet. Claro que esta apresentação não nos satisfaz, antes aguça o apetite para nos deixarmos levar por Carson ao modo como vê Eros assim e como a sua linguagem o apresenta.
Estão aqui todos os ingredientes que me levam a perguntar como nunca tinha lido este livro antes: os paradoxos, a mania, a metáfora, o diálogo vs. a escrita, entre outros mimos culturais e literários. Depois de lermos Eros, the bittersweet, não é apenas o Amor primordial (e o das nossas vidas) que ficou enriquecido, é o modo de olharmos para o mundo. Neste sentido, o livro de Anne Carson é um livro à maneira daqueles livros que estão contra si próprios: escrevem-se para lembrar que a palavra escrita não substitui o que não se pode escrever.

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