A Vila
Eis um ensaio sobre o medo e aquilo que o supera ou pode superar, como referiu MacGuffin. O que fascina em Shyamalan é o seu mundo e a sua dedicação, o que fascina na sua Aldeia é a forma como a perfeita encenação, encontra réplica nos desempenhos dos actores escolhidos, para uma conjugação arquitectada de suposições, convicções e reacções do espectador. Para fugir ao caos, à maneira hobbesiana, escolhe-se a ordem, que acarreta uma certa medida de opressão. Até que, por amor, corre-se o risco do caos, desafia-se a ordem. Arrisca-se a liberdade contra a opressão. A mensagem parece ser que nenhuma ordem conseguirá algumas vez subjugar o destino. Parece.
Parece que se preferiu Locke a Hobbes.
Se se pode ainda falar de cinema de autor, enquanto contínuo labor sobre uma certa visão do mundo traduzida através de uma forma artística, então Shyamalan é um digno cineasta. Chegou e perseverou na sua mundividência. Desde o seu primeiro filme, Praying with Anger, que podemos dizer que Shyamalan apresenta como tónica primeira a descoberta. Não tanto o oculto, que ele toma sempre como dado de partida, adquirido, mas a descoberta. E pode mesmo arriscar dizer-se que, desde então, toda a obra de Shyamalan é um conjunto de variações sobre processos e caminhos de descoberta.
É fácil rotular Shyamalan como o realizador dos twisted endings, que o cinema tanto precisa para compensar a sua contínua busca pela inquietude do espectador. Mas Shyamalan não o faz como um mero recurso estilístico e isso percebe-se. It comes naturally. Porque surge como corolário de um processo de revelação que pode ser utilizado para contar qualquer história. Shyamalan parece estar, sobretudo interessado, em estudar os mecanismos de descoberta e revelação daquilo que está oculto. E o oculto em Shyamalan pode ser tão vulgar como uma adolescência, em Wide Awake, o seu segundo filme ou tão transcendente como The Sixth Sense.
Uma outra dimensão importante em Shyamalan e que muito me interessa é a sua vertente de argumentista. Melhor diria escritor. Shyamalan integra-se num grupo de criadores que escreve incluindo o público no seu romance. Ele não escreve apenas para o público. Ele escreve com o público. Tal como Eco ou Calvino. Coloca-se no lugar do público, perante as suas obras e tenta antecipar-se a si mesmo, para perpetuar as revelações e as descobertas. Ou para as reinventar. Repare-se como os últimos dois filmes de Shyamalan se constroem sobre a suspeita e a sombra do sobrenatural, que é, afinal, o que Shyamalan tinha dado ao público nos outros dois filmes anteriores. O público vai preparado e Shyamalan sabe e Shyamalan troca-lhe as voltas pois revela-lhes a sua história. Não aquela que o público julga a sua. Confuso? Talvez. Mas é sinuoso o caminho que revela. Pois feito de muitas ilusões e expectativas.
A Aldeia é um filme que continua o percurso de um fabuloso escritor e realizador glosando as Revelações que o Oculto permite. A Aldeia é, neste sentido, um filme negro, de sombras. E se escrevo revelações e oculto refiro-me a abstracções e não evocações religiosas. Shyamalan encarna os seus filmes, é certo, mas sobre essa carne está um vertiginoso esqueleto ideal, flexível, oleado.
Nesse sentido A Aldeia é um ensaio sobre o medo e o destino, enquanto um e outro são, à vez, o oculto e a revelação. E aí está o que me fascinou nesta última criação de Shyamalan.
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