segunda-feira, 18 de agosto de 2003

Livros Amigos



Hoje está a apetecer-me falar de velhos amigos. Por isso, me lembrei das Peças em Fuga da Anne Michaels. Não me apetece fazer uma recensão do mesmo, por várias razões: para isso precisaria de tê-lo mais presente e de desconsiderar um pouco a minha visão emotiva sobre ele. Para uma interessante recensão, ver aqui. Não quero fazer nada disso. Aliás, a razão pela qual vos escrevo sobre este livro magnífico é pertencer àquele grupo distinto de livros amigos. Os amigos, sempre o achei, permitem-se o afastamento porque não se permitem o esquecimento. Posso estar semanas sem ver os meus amigos e no entanto tenho-os muito mais presentes que o jornaleiro ou a padeira quotidianos. Os amigos assimilam-se a uma outra parte da existência que escapa já a impressão dos sentidos, que vem de dentro para fora e pode, aliás, substituir-se a eles, permitindo-nos, por momentos, recuperar vozes, cheiros e visões que estão já no passado. Assim com os amigos, assim com os livros amigos. Muitas vezes dou por mim a pensar nas Peças em Fuga. Às vezes, à secretária, a trabalhar olho sobre o ombro para a estante, contemplando-o, para me assegurar que lá está e cumplicemente me mantém com a certeza de mim. Os amigos ajudam muito a isso. Outras vezes, recordo suas passagens em locais improváveis com dadas pessoas. As Peças em Fuga foram devidamente assimiladas. Não preciso de as reencontrar regularmente para me certificar da sua existência ou validar a sua importância. Não preciso sequer de recordar porque o amo tanto. Isso é algo que pertence já ao sereno da intimidade...

Sem comentários:

Enviar um comentário