"Estou sem poesia, sem a mão que toca a pele e nela sente uma terra escura e quente, cheia de vagens de trigo ou papoilas. Sem os olhos que se fazem olhares, do deslumbramento caleidoscópico do mel e do mar e do olmo e do verde. Do desolado musgo das grutas. Sem as imagens dos objectos transcendendo o alcance simples dos sentidos, como um corpo que se desfaz em fogo e fica ardendo em fagulhas pelos lábios que queima – e se diz assim que morreu mas foi amado. Também eu, um dia, morri e a poesia comigo. E restou, como um fantasma, a voz. E com estranheza a mão que perpetua a voz. E se restasse ainda alguma poesia, diria, dancei nos braços da morte e a noite findou. Sangrei à boca da morte mas levei o beijo comigo. E não deixei calar o ritmo das veias, pois enchi-as com som sincopado dos versos."
C. da Maia
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