terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O medo da morte

Há pessoas naturalmente propensas para considerar a morte e outras nem tanto, mas sempre me pareceu que o confronto existencial com a morte, excluídas circunstâncias excepcionais, não surgiria na vida de uma pessoa antes do nascimento dos filhos, e, ainda assim, não necessariamente.

De que circunstâncias excepcionais falo? Do contacto com a morte de alguém muito próximo ou com a nossa própria morte.

Devo dizer que sou um das pessoas que refiro no início do post, mas até aqui, a estranha combinação de energia marciana na casa de Neptuno (para ilustrar o problema aos amantes da astrologia) provocou um efeito interessante: no outro dia encontrei uns escritos dos meus 15 (!) anos em que referia que a vida devia ser a procurar pela imortalidade. Que raio de coisa para se escrever, agora que penso nisso há distância de mais de 20 anos. Mas o ponto fica feito, embora com alguma fragilidade pois a adolescência também é uma boa altura para pensar na morte, sobretudo desta forma tão idealizada. Por isso escrevi acima sobre um confronto existencial. Não quero minimizar as preocupações por que passam os adolescentes e desconsiderar a sua existencialidade, mas olhando para trás, a adolescência talvez construa a existência, justamente a partir de uma certa idealização, que se estilhaça, ou não, contra a realidade. Eu fui semi-gótico, pelo amor de deus!

Tudo isto para dizer que o confronto existencial com a morte há de ter uma razão, mais do que emoção. Há de ser mais do que racional, justificado, por oposição à irrupção caótica da adolescência, em busca de respostas. Poderia, por isso, parecer que escolhi mal a expressão para designar o que pretendo referir, pois o que há de mais emocional, de mais inquiridor, de mais examinador do absurdo, do que a reflexão existencial? De Kierkegaard a Sartre parece ser assim. Mesmo sem querer invocar, talvez em vão, o santo nome de Heidegger, o que pretendo com a expressão confronto existencial não pretende excluir a emoção, mas pretende, certamente, denotar que essa emoção é alvo de uma reflexão racional, que a enquadra e explica.

A mim aconteceu-me recentemente, como um processo, lento, mas cujos resultados operam uma transformação abrupta: de uma desconsideração pela morte, passei para um secreto e ligeiramente obsessivo medo da morte. Mais: o meu medo da morte não é tanto o medo de morrer, sem mais, único que até há poucos anos considerava, mas o medo de morrer a outros, aos meus filhos.

Quando se diz que tudo muda, com a maternidade e a paternidade, acerta-se sempre. Não é a única maneira de tudo mudar e por isso sou contra uma certa arrogância da moralidade reprodutiva: ter ou não ter filhos para mim são posições morais idênticas e incomensuráveis. Mas acerta-se sempre porque somos inevitavelmente confrontados com tantas facetas de nós, muitas das quais não tínhamos sequer alguma vez perscrutado, que é inevitável a mudança. 

No meu caso, fui assaltado pela pergunta: e se eu morresse agora, neste instante, e nunca os visse crescer, eles não se lembrassem sequer de mim, eu nunca lhes pudesse passar nada, ensaiar uma educação? Bem sei, são várias perguntas. Mas sempre o mesmo medo da morte. Um medo que vem de fora para dentro, algo que sempre pensei impossível.

É difícil estar sozinho com a solidão, quando a nossa solidão passa a definir-se pela construção de outros. Nesse caso parece-me até que morrer, antes de um qualquer sentimento de ter essa missão cumprida (se alguma vez) é uma dupla morte: morre-se por dentro e morre-se por fora.

O medo da morte por dentro foi algo que nunca experimentei - tenho, a esse respeito, uma espécie de corpo fechado - mas o medo da morte por fora é algo de dilacerante. E, por isso, uma nova forma de estar vivo. E andamos sempre nisto.

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