segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

As Catacumbas fecharam

Nos últimos anos ia lá pouco. Culpa minha. As Catacumbas cumpriam o seu papel: mantinham-se iguais a si mesmas. Eu é que mudei. Ou melhor, fui mudado. E uma das coisas que mudou foi a menor disponibilidade para ir até elas, até às Catacumbas.

Tornando isto um bocado mais emocional, direi as Catacumbas foram o meu templo durante bom tempo, sobretudo depois do Di Vino ter fechado. Verdade seja dita, antes dele, do Di Vino, já eu ia às Catacumbas. Aliás, antes das Catacumbas já eu ia às Catacumbas.

Na transição do café para o que viria a ser um dos jazz bares de referência em Lisboa, as Catacumbas apanharam a minha adolescência, em que o Bairro Alto era o centro da minha noite. O que eu precisava - e encontrei sempre lá - era de um poiso. Um lugar para estar sozinho no meio de gente. E, verdade seja dita, as Catacumbas muitas vezes lutaram, com sucesso, contra este meu estado natural. Muitas e muitas vezes saí de mim ao encontro de novas pessoas, às mesas das Catacumbas. Há nomes que vêm à cabeça, como pessoas genuinamente de lá, pessoas que para mim, na minha história, começam nas Catacumbas, como se antes disso nada importasse. De todas as que poderia indicar, escolho a Petra, que se tornou, para mim, a voz das Catacumbas.

Pensei que tinha escrito mais, aqui no Límpida, sobre as Catacumbas. Mas só encontrei isto, com quase seis anos. É, apesar de tudo, um texto novo. As minhas Catacumbas começam nos anos 90, têm um intervalo durante os anos do Di Vino e regressam por meados da primeira década deste século. Depois, o trabalho e a família dificultaram o estado de espírito que eu precisava de ter e de encontrar nas Catacumbas. Não és tu, sou eu. É mesmo verdade. Talvez seja por isso melhor matar a amante do que deixá-la ser tomada por outros? Nem pensar! Mesmo sem ir tanto às Catacumbas, como antes ia, todas as semanas, todos os fins-de-semana, o prazer que ainda restava era saber que lá estava, que outros continuam a ir lá, e que, mesmo eu, em dias especiais - Nobody's Bizness days mostly - podia lá ir.

Conheço várias pessoas que ficaram perturbadas com o encerramento do Captain Kirk. Confesso que me passou ao lado. Ia lá pouco. E a minha verdadeira dor, daquelas que cauteriza tanto, que nunca mais sentimos dor igual, veio com o encerramento do Di Vino. Agora que sei que as Catacumbas fecham as portas - é estranho dizê-lo - não me dói tanto a mim. Dói-me pelo Bairro, pelas pessoas que lá iam agora com a mesma fome e preces com que eu lá ia há uns anos. E dói-me sobretudo porque toda a beleza que morre me dói.

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