sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Ano três

Lá fomos nós ver do morto, pelo terceiro ano. Já é hábito. O chinês do costume já não existe. Fomos a um restaurantezeco local, lá perto. Depois entramos, descemos na conversa, até se começar a ver o rio. Aí calamo-nos até chegarmos à campa.

O L. leva sempre uma caneta, que deixa lá em cima. Eu não levo nada. Quer dizer, levo a viagem. A minha prenda é ir lá, como quem vai a Campo de Ourique. Deixá-lo descansar um pouco, porque deve ser cansativo andar sempre comigo no resto do ano. Pelo menos, nesses minutos em que estamos ali, os três, eu e o morto estamos outra vez face a face. E não, como desde há três anos, sempre com o morto dentro de mim, vivo. Paz à sua alma, dizem. Nada disso. Enquanto eu viver, já o disse, já o disse, o morto não morre. Quanto muito descansa um pouco, no dia da sua morte, nestes minutos em que nos olhamos, ele da frieza do mármore e eu dos meus olhos cheios de lágrimas. Depois lá voltamos os dois, com ele metido a mim dentro. Com um bocadinho de sorte, e muito vida partilhada, ainda nos havemos de meter os dois dentro de alguém - um filho, um amigo - e andaremos assim, de corpo em corpo, até aos últimos dias.

Entretanto, para o ano, lá estaremos de novo. O L. com mais uma caneta e eu, sem nada, senão o frente a frente com o morto, deixá-lo respirar, que a minha vida não está para calmas.

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