segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Eros, the bittersweet

Anne Carson

Não me lembro como descobri Anne Carson. Suspeito que terá sido quando me aventurei pelos territórios da poesia em inglês, quando me senti confiante o suficiente para lê-la em inglês: uma segunda língua em que podia provar a poesia. 

Isto foi há alguns anos porque lembro-me que mediou muito a compra do meu segundo livro de Anne Carson. O primeiro foi Decreation, de 2005, e lembro-me de o ter comprado pouco tempo depois de ter saído (e está datado por mim para esse ano). Durante muitos meses regressei a este livro, incerto de que o tivesse compreendido e de que em algum momento o pudesse compreender. Assim, Carson juntou-se a outras mulheres cuja escrita é algo que se torna uma linguagem, mais do que um estilo (Llansol, claro, mas também, como aqui escrevi, a Joana Serrado de Guarany). Basta começar por atentar no que se pode ler no rodapé da capa de Decreation: "Poetry * Essays * Opera". O terreno de Carson é a criação literária e toda a criação determinada, continuada, implica uma linguagem. 

A vantagem de termos uma linguagem é podermos, de certo modo, menorizar o tema, e substituí-lo por um modo. O tema torna-se o modo de o tratar. Por exemplo, em Decreation encontramos um ensaio "Every exit is an entrance", cujo o subtítulo parece definir o tema "A praise of sleep". Como quase sempre em Carson, a sua opinião mistura-se com a dos seus autores preferidos e é a linguagem que toma o protagonismo e condensa tudo. Geralmente os textos de Anne Carson são simultaneamente carregados de referência literárias e cinematográficas e ao mesmo tempo leves na liberdade que nos dão. 

De todo o modo Decretation é um objecto magnífico, mas muito estranho quando comparado com o segundo livro de Carson a que deitei mãos: Eros, the Bittersweet. Aqui Carson começa pelo fim e revela imediatamente o objecto da sua atenção, Eros, e como o vê, bittersweet. Claro que esta apresentação não nos satisfaz, antes aguça o apetite para nos deixarmos levar por Carson ao modo como vê Eros assim e como a sua linguagem o apresenta.

Estão aqui todos os ingredientes que me levam a perguntar como nunca tinha lido este livro antes: os paradoxos, a mania, a metáfora, o diálogo vs. a escrita, entre outros mimos culturais e literários. Depois de lermos Eros, the bittersweet, não é apenas o Amor primordial (e o das nossas vidas) que ficou enriquecido, é o modo de olharmos para o mundo. Neste sentido, o livro de Anne Carson é um livro à maneira daqueles livros que estão contra si próprios: escrevem-se para lembrar que a palavra escrita não substitui o que não se pode escrever.


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