quinta-feira, 1 de março de 2012

Podemos beber juntos

Vamos fazer assim: vamos fingir que eu estou bêbado e que isto não é um poema.
Vamos acordar algumas regras simples: eu estou a beber um Herdade Grande, Reserva,
2007 (not a bad year) e tu és livre. Isso mesmo, tu és livre. Podes estar a beber também
este Herdade Grande, Reserva, 2007 (não foi um mau ano) ou podes estar a fazer outra coisa qualquer.
Podes estar a chorar no Cais do Sodré, ali no escuro, depois de uma discussão complicada, com
aquele que amas (será que amas?) ou podes estar simplesmente a sair de Lisboa, para Coimbra,
uma velha avó que te espera para um abraço (será o último?) ou podes querer apenas aproveitar
para ler qualquer coisa na net ao fim da tarde, dedos perdidos num clickstream aleatório (não é sempre?).

E isto, realmente, não é um poema. Talvez noutro mundo, em que tudo possa ser uma poema. Não
neste aqui, em que os poemas já estão todos feitos, todos por escrever, em que a língua se debate
mas não se mata, como deve ser. Para que serve a língua senão para nos matarmos (Wittgenstein, mano)
antes mesmo de a morte nos tomar? É isto, é isto que te quero dizer, porque se leres com atenção este___
poema? perceberás que o meu interlocutor imaginário é sempre uma mulher. E porquê, por uma razão
simples, diria, porque sou um cavalheiro. Mas não. Algo mais prosaico: porque estou bêbado e como
no vinho verdade, em verdade te digo que para mim as mulheres sempre foram a única voz que me
trouxe alguma coisa de bom.

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