sexta-feira, 2 de março de 2012

Engajado

O morto falava-me, por vezes, de Sartre, por quem nunca tive grande interesse, mesmo tendo o morto a falar-me dele. Mas o que fascinava o morto em Sartre, sempre me pareceu, não era tanto a sua filosofia, mas o seu activismo. Uma inteligência superior ao serviço de valores superiores. E isso, parecia-me, era uma espécie de vaidade, que aliás me parecia assentar no pouco que sei de Sartre. Pensava, então, que a inteligência superior deve ser decantada com lentidão e cuidado para a produção científica e ficar disponível, sem clamores, sem bicos-de-pés, sem chamar a atenção, nos corredores das bibliotecas, nas prateleiras das livrarias, nos ficheiros das nuvens. O resto, que estranhamente se opunha a isto, seria um labor menor, do dia-a-dia, mas sem uma fonte partilhada. Dois modos distintos de agir sobre o mundo.

O morto, como quase sempre, tinha razão. Hoje estou em crer que uma inteligência (superior ou não) não se basta na sua dimensão pura (para usar a terminologia kantiana) mas tem que se assumir na sua dimensão prática. Engajada, para homenagear pelo galicismo.

Que somos nós se não tornamos a nossa inteligência uma voz e um braço contra tudo o que ela nos diz estar errado?

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