quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Três árvores

(a minha participação na A Sul de Nenhum Norte #5)


Margarida

“Nunca fui capaz de ensaiar 
 as dobras 
 meticulosas na folha branca”

A noite continua a parecer-te banal
se não te possui a vontade de
seres arrebatada. Se não houver uma
história, uma versão da tua vida
menos arrumada, simplesmente mais
apaixonante. Apenas para que possas
desfigurar-te. E seres própria.
Se assim o entenderes.

Maria


“quando neste lado da fala não há janelas para o silêncio
 fica um arrepio de insónia a escrever vazios”

há uma geografia secreta por dentro
dos passos da cidade velha e dos
encontros das ruas e dos recantos
das lajes.

bebidas somos um modo
de ser deusas: pagãs, serenas,
procurando testemunhar com saciedade
a fraqueza dos homens.

as horas passam no velho relógio do café
e nem por isso desistimos. A boca
aberta continua a ser uma promessa. E
a forma como ponderas a poesia
faz de ti o meu amor.

Joana

“Elk moment
 verzinken we
 en vallen we in het puin.”

para ti a linguagem tem que ser ferida
e
nem pensar em curá-la. Tu és um
projecto lento de cicatriz. Antes
um passeio pela gramática do corpo,
aberto aos golpes das rosas, veias
e linfa transformadas em alfabeto
e sintaxe, abertamente afrontando
a carne e o pensamento. Nada disso.
Ao invés, uma pornografia das palavras
nua, gratuita, oferecida e reiterada.

uma linguagem vegetal que se tornou
minério pelas fraquezas do corpo.

As angústias ossificam,
a linguagem liberta

Ages porque as palavras te excitam
e jogas porque as palavras te conhecem.

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