sábado, 5 de novembro de 2011

Variações

(a minha participação n'A sul de nenhum norte #4. Não dispensa a leitura do original)



Para tentar a solidão

Para tentar a solidão tenho falado com os mortos:
o outro de mim que morreu faz tempo
o meu outro pai que o cancro levou há pouco.

Vamos. Conversando.
Assim são as ruas. Que passam por nós.
E não tanto. Nós que passamos pelas ruas.
Nas passadeiras, nas arcadas, pelas montras.

À noite é mais fácil: há o silêncio do sono
E os acordados, eu e os mortos, convencem-se melhor.

Há vida a mais nas nossas vidas. E não o percebemos.
Não cultivamos a solidão ou a morte, o suficiente
para que possamos compreender o terror
provocado pelo sorriso dos nossos belos filhos.


Só para começar

Só para começar podemos chamar-lhe beleza
ao modo
um sentido -
ao modo, como as formas exteriores e,
animados, os gestos, de específicas mulheres
____________________________ e homens
se compõem como encanto e escárnio
da razão corrente. Apenas para começar
pois, explicação dada, assim:

se uma específica mulher_________ou homem
provoca encanto e o abandono da razão comum,
podemos aceitar
________________nomear o fenómeno: beleza?

Parece-me, há já muito tempo,
outra coisa: uma mutação inexplicável
da nossa solidão, que toma para si mais um corpo
sem se extinguir.


É curioso como...

É curioso como o amor transforma a natureza
____________________________da beleza.

Não falo de quem ama feio bonito lhe parecer
____________________mas de algo diverso.

No metro, duas mulheres muito belas. Destacadas
por dia de gente invulgarmente feia_____e suada.
(parece que se realizara uma maratona)
A beleza física, à boca das outras, perturba.
E conduz, podendo a alma (e dizem, também o corpo)
ao enamoramento_____________contudo, se amamos
parece já a beleza, perturbadora apenas, nada mais.
Sem a promessa do amor por vir, já tomados estamos.

Talvez se possa formular que a beleza
________________________nas pessoas já amantes
demonstra que na solidão de cada um
________________________ cabe apenas mais uma.
Mesmo que toda a beleza, perturbando.


Naquela altura discutíamos

Naquela altura discutíamos deus
porque todos nós o desconhecíamos
mesmo os mais católicos -
e eu, à noite, ao deitar-me
sempre sozinho -
estava longe de imaginar
que
deus é a solidão.

Depois dela, a consciência de nós
é absoluta. E
tudo o que nós somos, evidencia-se.

Em tudo ela está e tudo sabe,
tudo pode, a solidão de nós.

Verdadeiro mistério da fé.

Sem comentários:

Enviar um comentário