sexta-feira, 15 de outubro de 2010

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Uma década a viver em tempo emprestado. O homem feliz angustia-se a pensar nisso, por estranho que pareça. Celebra dez anos de vida em angústia: num repente apercebe-se de tudo o que não teria vivido se não lhe tivessem dado estes últimos dez anos, se tivesse ficado no dia quinze de Outubro de dois mil. E percebe, um instante depois, que o tempo trará sempre mais angústia: quanto mais o homem viver maior será o peso do tempo emprestado.

O homem não tem medo da angústia. Nunca teve. Trata-a bem quando o visita. A angústia augura, sempre pensou, a mudança. Trata-se apenas de ser o homem a devir a mudança e não a mudança o devir do homem. Afinal, o homem ainda está vivo. Em tempo emprestado é certo. Sabe que morreu com vinte e três anos e que esta vida nova é um sonho. Ao pé disso a angústia é pouca e de pouco efeito. O que resta, o que explica estes dez anos, o que por certo explicará o resto do seu tempo emprestado, não é a angústia: é o amor. A única forma de solidão partilhada.

Uma década, dez anos, por extenso e ao comprido. Parece que foi ontem. Todos os dias destes últimos dez anos, todos estes três mil seiscentos e cinquenta e dois dias, pareceram que foi ontem. E ontem é sempre dia quinze de outubro de dois mil. O que significa que hoje é sempre o início do tempo emprestado e da estranha liberdade/responsabilidade de estar vivo da melhor maneira.

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