sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Gostar de gente - o Pedro e a Ana

eu conheço o Pedro e a Ana vai para dez anos. Como nos conhecemos? Assim: há uma coisa que é o IRC e não sei se foi ele que perdeu a magia, se fui eu que envelheci para ele, mas deixei de lá ir há uns anos largos. Mas antes disso parávamos por lá eu, o Pedro e a Ana. Entre tantos outros. Marias, por exemplo. Claro que nem eu me chamava Francisco nem eles Pedro e Ana. Tinhamos outros nomes, nicknames. E animávamos canais de conversação, como se conveio traduzir os chat rooms, em noites e madrugadas. Se vos disser que nesses anos de maior movimento nunca nos vimos não estarei a mentir. Nunca nos vimos. Eu em Lisboa, eles em Coimbra, cidade onde pouco ou nada ia, existíamos num mesmo quarto apenas porque esse quarto, em boa verdade, não existia. Era virtualidade. E de virtualidade em virtualidade se fez um país pequeno ainda mais pequeno. Mas isto explica pouco quase nada. Nunca se poderia prever o que depois aconteceu.

Gostar de gente, ao contrário do que a expressão (que propositadamente escolhi) poderia indiciar, não tem nada de abstracto, genérico ou impessoal. Para gostar de gente é preciso estar preparado para gostar, por exemplo, do Pedro e da Ana, por serem, muito específica, concreta e pessoalmente o Pedro e a Ana. É preciso que um sentimento de convívio, de simpatia, de interesse, de pertença tenha uma oportunidade. E mesmo duas e três. Quando tudo nos diz para duvidarmos, acautelarmos, temermos. Nada disso.

Um dia, uma passagem por Coimbra e por que não encontrarmo-no? Ali mesmo no Tropical, só para começo de conversa, eu, o Pedro e a Ana. Pessoas que se falavam há muito tempo e que só então se viam. E mesmo isto já foi há muito tempo. E desde então muito se passou e se pouco nos vimos, encontrámo-nos o suficiente para nos querermos continuar a encontrar. Mas há mais.

Hoje enquanto esperava pelo Pedro e pela Ana, à porta dos Armazéns do Chiado, para almoçarmos deitei-me a pensar na vida, na minha, na deles - na pequeníssima parta da vida deles em que eu também entro - e ali mesmo, como um bobo, um mimo, estava sorrindo, em pé, às pessoas - magotes, meu santo deus do Chiado! - que entravam e saíam dos velhos renovados Armazéns.

De que sorria? Digo-vos. Sorria do tempo que passa mas não passa por tudo nem tudo leva. Comecei por lembrar como nos tinhamos conhecido, o que agora vos contei, e como isso hoje é um subtexto silente, que lá tem o seu lugar; de como já nos tinhamos encontrado várias e várias vezes, em Lisboa e Coimbra e como sempre é um prazer reencontrar a Ana e o Pedro. E eles atrasados. Não tem importância. Mais tempo para pensar nisto (e fui encontrando gente): como antecipava mais um desses encontros, como nos sentaríamos a uma mesa - foi nas Escadinhas do Duque - almoçando e conversando, como depois iríamos às nossas vidas. E, tão certo foi este nosso reencontro, como será o próximo.

Posso estar a ver mal, a sentir mal a pulsação desordenada do mundo, as suas fraquezas e desânimos, mas isto é bom a valer. Este encontro de gentes, que se conheceu na virtualidade e à realidade se deu. E sem esforços, sem promessas. Apenas, creio, porque gostamos de estar uns com os outros. Porque temos alguma coisa para dizer. Pelo menos no pouco tempo que sempre estamos (mas suspeito que mais teríamos se mais estivéssemos).

O texto vai longo, o Pedro e Ana continuaram viagem, eu deixei-me subir ao Camões, deixei-me escorrer pela Calçada do Combro, por aí fora. Contente pelo Pedro e pela Ana, por mim também, por gostar deles desta maneira que não sei que maneira é, mas que fez escrever este texto, e estar contente o dia todo. E ter a certeza que nos reencontraremos quando for tempo.

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