sexta-feira, 29 de agosto de 2003

Mistério



Há que reflectir nesta frase das Azure Ray, em Safe and Sound



"love is how it's lost not how it's found"



Pressinto significados profundos e importantes nesta frase...
Reparei hoje



Há outra vez crianças a brincar na rua onde cresci.
Largo da Achada

Deitei-me no Largo da Achada
Esta é a minha Lisboa

Aí sonhei vagas imagens de luz
E recantos de silêncio

Ruas várias ao invisível
Caminhos de sonho

Deitei-me no Largo da Achada
Sonolento, meio bêbado
Quis serenar a loucura
E deixar os olhos na árvore
E na noite

Ah! Como amo esta Lisboa
Onde me sinto sempre em casa
Como se qualquer piso fosse o meu poiso
E toda a terra o meu lar

Esta é a minha Lisboa
Silenciosa, escura, luminosa só de céu
Hoje, Marte, aos beijos,
Meio paz ou violência

Esta é a minha Lisboa
Meretriz da inocência

segunda-feira, 25 de agosto de 2003

Plágio vil



A Helena no seu blog afirma algo que tomo para mim mesmo:



Logo que tenha tempo melhorarei.

domingo, 24 de agosto de 2003

Percursos



Pegar na vespa cor-de-vinho (tinha de ser) e ir pelo Monsanto num ronronar vagaroso. Descer pela Ajuda, passar pelo Parque dos Moinhos de Santana, muito lentamente, olhar tudo lá de cima. Parar no CCB, comprar o bilhete para Zeca Baleiro. Voltar à garupa da vespa e ir pelos caminhos interiores - Junqueira, Calvário, Janelas Verdes, Santos, Calçada do Combro. A BDMania está fechada, já o sabia. Rodopio pela António Maria Cardoso e subo de novo ao Chiado rumo ao Príncipe Real. Desço a rua do Jasmim com a vespa mansinha, corto para a rua da Palmeira. O Pão de Canela está triste com tapumes. Dou a volta por cima para entrar na rua da Quintinha, ao princípio daquelas escadas que sobem de S.Bento. Deslizo, mesmo subindo, pela rua e regresso à Praça das Flores. Subo a Marcos Portugal, Imprensa Nacional e estou à porta do Jardim Botânico. Vou na direcção do Rato, Artilharia I, Campolide...apanho a Radial, com o Monsando de novo ao lado e a linha férrea do outro, o vento bate-me no corpo, complacente. Sinto-me o Moretti. Regresso a casa.





"eu não sei dizer

o que quer dizer

o que vou dizer



eu amo você

mas não sei o que

isso quer dizer



eu não sei por que

eu teimo em dizer

que amo você



se eu não sei dizer

o que quer dizer

o que vou dizer



se eu digo pare

você não repare

no que possa parecer



se eu digo siga

o que quer que eu diga

você não vai entender



mas se eu digo venha

você traz a lenha

pro meu fogo acender"




Lenha, Zeca Baleiro



Finalmente um filme com o título à minha medida...



...e o resto!



Embriagado de Mulheres e de Pintura



A não perder! Em exibição...

sábado, 23 de agosto de 2003

Axioma



A determinação a um momento de partilha profunda sobrevoa o resto do mundo em importância

sexta-feira, 22 de agosto de 2003

Hum...



India Song....



...c'est ça...
Ah! Tudo em aberto!



Estou de novo na espuma dos dias

- Ah! Boris havíamos de ter sido tão amigos! -

Todas as noites adormeço nas praias desconhecidas do desejo

E acordo nas margens do sonho

Banhado pelos mais perfumados destinos

Sou uma existência sobre vivente

Que se confunde de mar e areia

De gesto, futuro e pulsão

Estou de novo nos ritmos das horas

Os sorrisos nascem nos rostos

Pois sentimo-nos uns aos outros a plenitude da vida

E ela é boa e promissora

Estou de novo aqui.

quarta-feira, 20 de agosto de 2003

Ainda sob o efeito do choque, com pesar triste



Pedi a uma amiga um texto que falasse da sua paixão pelos direitos humanos, em que é Mestre (in more ways than one), que mostrasse a sua paixão pela vida e a sua compaixão pelos outros. Algo, enfim, que falasse por mim e penso que pelos Putos.



Deixo-vos com as palavras de Inana:



"Estou farta de atentados...tão farta...de ver sangue e morte nas imagens que nos chegam...de, mesmo à distância, sentir o cheiro a morte, sentir o medo das pessoas, sentir a dor e a angústia de quem se vê apanhado no meio de um caos obviamente sem sentido... Ontem tudo isto nos chegou de novo... Um ataque às Nações Unidas, ao pessoal das NU que estava no Iraque. As NU foram contra a intervenção no Iraque mas lá estavam agora a cumprir a sua função de manutenção de paz num cenário hostil... Um ataque às NU é um acto inqualificável, como o são todos os atentados. As NU representam todas as Nações do Mundo, representam os desejos de paz e reconstrução. E naquele edifício em Bagdad funcionavam todas as agências das Nações Unidas que só estavam no Iraque para ajudar o povo iraquiano a alcançar essa paz. Todos podemos ser vítimas do terrorismo e, mais uma vez, isso ficou bem demonstrado...Aquele que é o mais alto representante das Nações Unidas para os Direito Humanos, o seu Alto Comissário, morreu soterrado nos escombros numa cidade e num país onde apenas tentava alcançar a paz e garantir o respeito pelos direitos humanos...foi vítima do terrorismo e de um sonho...o sonho de mudança e o sonho de acreditar ser possível ajudar...Com ele morreu um pouco da minha esperança, morreu um pouco do meu sonho...morreu um pedaço da minha confiança...e morreu muita da minha ingenuidade...Porque quando morre um herói dos direitos humanos (que representa tanto heróis genuínos e defensores desses mesmos direitos) no cumprimento da sua missão, com ele morrem um pouco todas as pessoas que querem acreditar... Termino com uma palavra à Ara, que estava no momento do atentado tão bem a cumprir a sua missão na Unicef, no mesmo edifício que agora foi destruído, fazendo aquilo que mais gosta, trabalhar com crianças: espero daqui a pouco tempo estar a ver o teu sorriso contagiante!"

terça-feira, 19 de agosto de 2003

Ele que fique como lembrança..



de que morreram mais pessoas no atentado à sede da ONU em Bagdad. Lembro-as todas quando falo do Sérgio Veira de Mello, lembro-as todas.
Sérgio Vieira de Mello



Ele era da paz...é só isto que me vem à cabeça. Tenho lágrimas nos olhos, estou revoltado como tudo. Revoltado até por estar revoltado, por estas coisas, por estas merdas, ainda me darem volta ao estômago.



Ele era de paz, que hei-de escrever mais...

segunda-feira, 18 de agosto de 2003

A arquitectura dos sentidos



Se não há surpresas tudo começa com rumores - "Ouço os teus movimentos aromáticos"



Cheiras a certo e é com um olhar que te cheiro ao longe



O tacto chega para que os olhos se possam fechar, mesmo que abertos



O teu sabor é só uma confirmação do cheiro, confundidos.





Ética: com o olfacto constroem-se os alicerces da felicidade. Só ele suporta e confirma o saber do que é certo. O tacto e o paladar são traves mestras, invisíveis nas paredes da existência. Quando vemos e ouvimos estamos só a acolher o que poderá habitar em nós.

Gritar



Há coisas que não basta desejar baixinho no íntimo interior das nossas vontades, há que dizê-las altas e expostas para que sejam conhecimento dos outros e assim possam ser o que eles quiserem: inspiração, carinho, outra coisa qualquer. Ou nada. Mas há que dizê-las:



Força Suzi.

A limpida medida busca-se em todo o lado. E entre os pólos há muito mundo para serenar. E outro tanto onde criar.



(e um abraço para o Alexandre)
Livros Amigos



Hoje está a apetecer-me falar de velhos amigos. Por isso, me lembrei das Peças em Fuga da Anne Michaels. Não me apetece fazer uma recensão do mesmo, por várias razões: para isso precisaria de tê-lo mais presente e de desconsiderar um pouco a minha visão emotiva sobre ele. Para uma interessante recensão, ver aqui. Não quero fazer nada disso. Aliás, a razão pela qual vos escrevo sobre este livro magnífico é pertencer àquele grupo distinto de livros amigos. Os amigos, sempre o achei, permitem-se o afastamento porque não se permitem o esquecimento. Posso estar semanas sem ver os meus amigos e no entanto tenho-os muito mais presentes que o jornaleiro ou a padeira quotidianos. Os amigos assimilam-se a uma outra parte da existência que escapa já a impressão dos sentidos, que vem de dentro para fora e pode, aliás, substituir-se a eles, permitindo-nos, por momentos, recuperar vozes, cheiros e visões que estão já no passado. Assim com os amigos, assim com os livros amigos. Muitas vezes dou por mim a pensar nas Peças em Fuga. Às vezes, à secretária, a trabalhar olho sobre o ombro para a estante, contemplando-o, para me assegurar que lá está e cumplicemente me mantém com a certeza de mim. Os amigos ajudam muito a isso. Outras vezes, recordo suas passagens em locais improváveis com dadas pessoas. As Peças em Fuga foram devidamente assimiladas. Não preciso de as reencontrar regularmente para me certificar da sua existência ou validar a sua importância. Não preciso sequer de recordar porque o amo tanto. Isso é algo que pertence já ao sereno da intimidade...

domingo, 17 de agosto de 2003

Só por vos deixar isto aqui até vou dormir mais descansado...



Quero mesmo aliciar-vos... e sempre é mais honesto e fácil do que uma hiperligação...



Do álbum In between now and then, Risen dos O.A.R. (Of a revolution).... estes meninos são muito bons...



"I'm not quite sure how I got here.

A minute passed and I'm on my feet.

I never knew life could taste so good.

I need a little minute, just a moment to breathe.

No matter where I go, no matter who I see

Well I'm reminded of my earlier days.

No matter where I roll, no matter what I know

Well I'm reminded of my earlier ways.

But now I keep asking myself.



Wouldn't it be the best damn day if we all took time to breathe?

Just one stolen paragraph in the book's written history.

Don't you sometimes wonder while people are afraid to smile?

Don't look down we're gonna come around and it always come to back, crack of time eventually.

Just ascend with me.



I'm not quite sure when I woke up.

The night flew by as I lay asleep.

Who ever knew life could feel so good?

I need another minute.

Just a moment to breathe.

No matter where I go, no matter who I see

Well I'm reminded of my earlier days.

No matter where I roll, no matter what I know

Well I'm reminded of my earlier ways.

But now I keep asking myself.



Wouldn't it be the best damn day if we all took time to breathe?

Just one stolen paragraph in the book's written history.

Don't you sometimes wonder while people are afraid to smile?

Don't look down we're gonna come around and it always come to back, crack of time eventually.



Wouldn't it be the best damn day?

Wouldn't it be a wonderful day?

Wouldn't it be a glorious day?

If we all took time to smile, made just a minute for you and me.

Wouldn't it be the best damn day?"




....agora imaginem isto com um grande som...

sábado, 16 de agosto de 2003

Daqui ninguém vai enganado





Querem som para os vossos dias de Verão, daquele que vos coloca em dança por dentro e por fora...sem pretensões outras que relaxar-vos os músculos e o espírito?



Então, toca a apontar:



Dispatch - Bang Bang



O.A.R. (Of a Revolution) - In between now and then



É bom, é divertido e é inspirador.

É à confiança!

sexta-feira, 15 de agosto de 2003

Estes eram os dias...



dedicado ao Di Vino (nunca haverá outro sítio como tu)



"Primeiro acto (ou seja, quase meia garrafa)



Antes eram as vinhas as nossas tocas

Nossos esconderijos estranhos

Só nossas brincadeiras eram simples

Com a candura das crianças



Uivam as nossas memórias

Em saudades perdidas

- Ah! Tristeza antiga -, queridas



Evitam as vozes as nossas bocas

Com medo de quebrar o espaço

Que construimos entre nós

Certo

Límpido de histórias

Cinismos

E maleitas



Volvem cristais os nossos olhares

Em luz despedaçada

Amam só, nossos desejos

As pálpebras abraçadas



Segundo Acto (ou seja, mais de metade da garrafa)



Espera!

As certezas que gritei são vãs

Sem a certeza tua



Quero-te,

Percebes a simplicidade do meu desejo

É a sua falha

Quero-te tanto, que não sei como te quero





Libação a ti, grande deus

Poderoso ser em teu poder

Fecundo e belo



Amo-te em solidão

Não por te amar sozinho

Mas por te amar só



A ti



Terceiro Acto (ou seja, já estou zonzo)



Obriga a vida

A encontrar a certidão

“Encontraste-a?”



Amei sempre a vida

Mesmo quando me odiava



A culpa não era dela

Mas de mim, que me traí



E quanto mais espeto em mim

A traição - adaga estreita -

Mais amava a vida

E os outros



A ti não te amo

Mas tenho horror à tua ausência



Que será isso?

Quando a ausência que temo de ti

É a ausência da tua lembrança,

Eterna imagem, em mim.



Quarto Acto (ou seja, já não estou lá muito bem ou a garrafa está vazia)



Não sabes que te amo

Nunca to disse

As árvores eram verdes nessa altura

No tempo da dúvida

Mas depois morri um pouco



Não sabes que te amo

Nunca to disse

Porque nem eu o sei, entretanto

Desejo-te, como quem possui

E penso em fazer-te sorrir



Não sabes que te amo

Nunca to disse

Mas a verdade é

Que a tua pele morena

E esse teu sorriso largo

São só as legendas

Do que em ti é a história,

Que amo



Quinto Acto (ou seja, quase bêbado ou porque a sobriedade nunca me larga)



Agradeço as forças

Que souberam acompanhar-me

Em novas de mais alto



Reavivo os certames do disposto

Do tempo claro e bom

Por deixar as tempestades

De claridade e poder

Todas tocadas



Abrigos eram vários

Os mestres dos heróis tidos

Por princípio da redenção



Só a força que vem de ti

Te salvará

Face ao tónus que sentires

Quando abraçares a tua vida"



C. da Maia

quinta-feira, 14 de agosto de 2003

Mas esta ainda é mais genial...(e como esta há mais)



"A maior parte das pessoas é desastrada na sua percepção dos outros, que são o objecto mais complicado e delicado do universo"



Ortega y Gasset in Estudos sobre o Amor



Já esta citação serve para este fim: Vão comprar o livro!!!!! Edição da Relógio d'Água.



também para a Mariana, obviamente
Estará ele certo ou estará errado?



Sim...vou citar...mas só porque coloco esta questão sob escrutínio público:



"Um amor pleno, nascido de raiz, não pode verosimilmente morrer"



Ortega y Gasset in Estudos sobre o Amor





à Mariana, que me fez reler este livro

segunda-feira, 11 de agosto de 2003

(Re)Nascemos quando geramos - sugestão para uma profunda leitura suave ou A humanidade habitável





Cronicando do Mia Couto.



Leio-vos só isto (estou a ler-vos alto enquanto escrevo):



"Refaçam-se agora as contas da humanidade habitável. Pois cada menino nascido faz nascer uma mãe de uma respectiva mulher. Assim, cada novo ser triplica o número dos viventes. Um filho, afinal, é quem dá à luz a mãe".



E um pai...e um pai...

sexta-feira, 8 de agosto de 2003

Questão curiosa



Qual é a coisa mais parecida com o vinho?

O vinho branco.







(um dia virei à proa defender os Brancos, não se amofinem)
O Alvarinho



Enófilo diletante que sou não posso deixar de recomendar um Quinta da Brejoeira para as noites, escandalosamente, quentes deste Verão.

O Quinta da Brejoeira tem várias vantagens. Além de ser bom, o que não é uma vantagem é uma obrigação, é o correcto substituto do champagne no imaginário erótico dos mais ousados.

É o vinho perfeito para se beber numa varanda a partir da meia noite.

Acompanha bem com marisco e se tiverem um estômago saudável experimentem umas ameixas.



Mas, acima de tudo, beber o Alvarinho Quinta da Brejoeira é assimilar o micro-clima do Minho em qualquer lugar. E poder perpetuar no calor a leveza poética da mais divina substância criada pelo homem.

Mesmo sendo branco e não tinto.
Espero que tenham aproveitado. Ou não.



Como vos avisei em altura própria, espero que tenham aproveitado os momentos depressivo-dramáticos que vos tentei proporcionar. No entanto, isto é chão onde a tristeza não grassa e por isso estou de volta à busca optimista da limpida medida.



Próximos tópicos:



Vinhos para este Verão



e



basicamente tudo o resto que me lembrar....como sempre.



quinta-feira, 7 de agosto de 2003

Aqui recomenda-se poesia



Leiam o Esconde-Esconde desta menina. E aproveitem e deitem os olhos no Poema Sáfico n.º 6 desta outra.



Gostei muito destes vossos poemas. Parabéns às duas.

E, por favor, continuem a presentear-nos com as vossas criações.

quarta-feira, 6 de agosto de 2003

"Estou sem poesia, sem a mão que toca a pele e nela sente uma terra escura e quente, cheia de vagens de trigo ou papoilas. Sem os olhos que se fazem olhares, do deslumbramento caleidoscópico do mel e do mar e do olmo e do verde. Do desolado musgo das grutas. Sem as imagens dos objectos transcendendo o alcance simples dos sentidos, como um corpo que se desfaz em fogo e fica ardendo em fagulhas pelos lábios que queima – e se diz assim que morreu mas foi amado. Também eu, um dia, morri e a poesia comigo. E restou, como um fantasma, a voz. E com estranheza a mão que perpetua a voz. E se restasse ainda alguma poesia, diria, dancei nos braços da morte e a noite findou. Sangrei à boca da morte mas levei o beijo comigo. E não deixei calar o ritmo das veias, pois enchi-as com som sincopado dos versos."



C. da Maia